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Livro: Os custos fatais da virilidade de Lígia Amâncio versão para impressão enviar por e-mail
25-Jan-2005
Estudos sobre a masculinidade revelam que o conceito tradicional de virilidade pode ser fatal para os homens, induzindo-os a comportamentos de risco que aumentam as mortes nas estradas e propagam a SIDA entre os heterossexuais.

"O que mostram os estudos é que algumas formas de masculinidade, nomeadamente a masculinidade hegemónica ou tradicional, têm custos", explicou à Lusa a psicóloga social e professora do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE) Lígia Amâncio, a propósito do livro "Aprender a ser homem, construindo masculinidades", que lança quinta-feira em Lisboa. A investigadora, que se tem dedicado ao estudo dos conceitos sociais de género, compilou neste trabalho uma série de estudos realizados por jovens psicólogos sociais seus alunos no ISCTE, sobre os efeitos sociais do conceito tradicional de homem.

Segundo defende Lígia Amâncio, o facto de os homens terem uma esperança de vida mais curta do que a das mulheres pode explicar-se socialmente. Devido a um certo conceito de masculinidade, os homens "preocupam-se menos com o corpo, queixam-se menos, são menos frequentadores dos serviços de saúde", diz a psicóloga. Por outro lado, como prova um dos estudos descritos no livro, o número de mortos nas estradas entre os 18 e os 24 anos é "esmagadoramente masculino", o que pode explicar-se, segundo a autora, com uma necessidade dos jovens de provar a virilidade através da busca do risco e do desafio. Também o aumento da SIDA entre os heterossexuais não é alheio às questões do género.

"Está ligado a uma forma de comportamento sexual que prescinde da prevenção", diz Lígia Amâncio, adiantando que este problema tem duas vertentes: por um lado os rapazes não tomam a iniciativa de sugerir o preservativo, por outro as raparigas assumem uma posição subordinada aos seus companheiros. Mas nem só os heterossexuais sofrem as consequências da concepção de masculinidade hegemónica, afirma a psicóloga social, lembrando que aqueles que não assumem para si o modelo tradicional de homem são duramente estigmatizados.

Segundo Lígia Amâncio, a homossexualidade masculina é aliás muito mais discriminada do que a feminina. Ao contrário da feminilidade, que surge historicamente associada ao corpo, a masculinidade, no conceito tradicional, "tem de ser constantemente provada com actos e está sujeita a uma vigilância apertada", explica Lígia Amâncio. "Claro que uma das provas centrais da masculinidade é a heterossexualidade", assinala.

O lançamento do livro organizado por Lígia Amâncio decorre quinta-feira à noite na livraria Ler Devagar, em Lisboa, com apresentação do antropólogo e activista Miguel Vale de Almeida. Segundo a autora, este trabalho pretende contribuir para alargar o debate sobre as questões do género aos assuntos que dizem respeito aos homens. "Há o entendimento de que as questões do género só dizem respeito às mulheres, mas é errado. Dizem respeito a ambos os sexos, embora os problemas sejam distintos", afirma a autora, explicando que, enquanto no feminino os problemas se prendem com questões de direitos e cidadania, no masculino as consequências surgem nos comportamentos. Assumidamente feminista, Lígia Amâncio afasta qualquer contradição com o facto de se dedicar neste livro às questões da masculinidade. "Foi o movimento feminista que tornou esta área do saber possível", refere a psicóloga social, lembrando que, "embora no início a preocupação fossem as consequências desses conceitos para as mulheres, foi este movimento que começou a questionar as concepções sociais sobre o género".

FONTE: Agência Lusa (Notícia SIR-6692009)

 
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